Cadeira nº 01 PDF Print E-mail

 

CONS. DR. JOZÉ CORRÊA PICANÇO (1745-1823? / 1824? / 1826?)

 

Antonio Carlos Nogueira Britto 

Na cidade de Goiana, na bela capitania de Pernambuco, nascia Jozé Corrêa Picanço a 10 de novembro de 1745, filho do cirurgião barbeiro Francisco Corrêa Picanço.

As primeiras letras foram aprendidas em sua terra natal e é levado para o Recife, após a conclusão dos estudos primários, onde aprendeu a arte cirúrgica orientado pelo seu genitor.

Muito estudioso e dotado de extraordinária capacidade de aprender e de atilada destreza mental, o governador da capitania, Vila Flor, resolveu nomeá-lo em 1766, Cirurgião do Corpo Avulso de Oficiais de Ordenanças nas Estradas e Reformados, aos 21 anos de idade. Conseguiu sua transferência para Lisboa e matriculou-se na Escola Cirúrgica de do Hospital de São José, onde lecionava celebrado barbeiro de nome Manoel Constâncio que foi considerado o criador da escola cirúrgica portuguesa.  Na escola de Lisboa, Picanço graduou-se em licenciado em cirurgia. Ao depois, viajou para a França, permanecendo em Paris e freqüentou as clínicas cirúrgicas mais importantes da capital francesa, aprendendo com Sabatier e Morand, famosos mestres de cirurgia. Obteve o diploma de “officier de santé”, quando voltou para a capital lusitana, depois de freqüentar as Escolas de Montpellier e Pádua. Residiu em Lisboa e alcançou fama e riqueza na profissão.

Na Universidade de Coimbra, que fora reformada pelo Marques de Pombal, Picanço ocupou a cadeira de Anatomia Prática e Cirurgia, todavia com nomeação de substituto, porquanto, na condição de apenas “officier de santé”, foi autorizado apenas a praticar a medicina, mas sem diploma de doutor, sucesso que o levou de volta à França, onde cursou medicina, doutorou-se sustentando tese inaugural ante a Congregação da Faculdade de Medicina de Paris.

Na capital de França, contraiu himeneu com D. Catarina Brochot, com quem teve muitos filhos, dentre as quais Izabel Felisberta Brochot Picanço, que no ocaso da vida do seu pai, recebeu do reconhecido e generoso D. João VI pensão vitalícia, extensiva ao Dr. Picanço.

Retornou à Coimbra, já com o título de doutor, assumindo a cátedra em condições de igualdade com os colegas portugueses que eram doutores. 

Doutor em Medicina, professor da cadeira de Anatomia, Operações Cirúrgicas e Obstetrícia, da Universidade de Coimbra, e Membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, criou o ensino prático de Anatomia em cadáveres humanos, que antes era demonstrada em carneiros, modernizando-o consoante o praticado em Paris ao substituir, no ensino o médico, o italiano Luis Cichi. 

Após onze anos ininterruptos, exerceu com invulgar proficiência a cadeira de Anatomia, jubilando-se, aos 45 anos, em 28 de junho de 1790.

Foram extintos pela Rainha D. Maria I, em 1782, os cargos de Físico e de Cirurgião-Mor, criando por ato de 17 de junho do mesmo ano, a Real Junta do Protomedicato, a qual lança os fundamentos da moderna política médica em Portugal, ficando, destarte, sob a jurisdição dessa Junta, todos os assuntos pertinentes à medicina do Reino e Colônias, fiscalizando a saúde pública e o exercício da medicina e profissões afins, obrigando àqueles que desejassem exercer a profissão, a prestarem exames perante os deputados da Real Junta, com a observância de programa específico, que teve como um dos signatários Jozé Corrêa Picanço, deputado e membro nato da sobredita Junta.

Nomeado cirurgião da Real Câmara. Assinou, junto ao brasileiro Francisco de Melo Franco, em 1791, como componentes de junta de médicos para avaliar o estado mental da rainha, que tinha se agravado rapidamente, laudo que lavrava o fim do reinado da infeliz soberana enfraquecida da razão.

Quando o general Jean-Andoche Junot, ao depois Duque de Abrantes, chegou comandando as tropas napoleônicas, em marcha acelerada, até as margens do Tejo, avistou na linha do horizonte as níveas velas da frota que transportava a família real portuguesa em derrota ao Brasil, ante a invasão de Napoleão Bonaparte.

Batida pela tempestade, nas proximidades da ilha da Madeira, a frota dividiu-se em duas, chegando, em 24 de janeiro de 1808, até a capitania da Bahia, a que era composta pela maior parte de embarcações, incluindo a que transportava o Príncipe Regente.

Chegando à Bahia, em nau transportando a família Real, investido na subida dignidade de Cirurgião-Mor do Reino e Estados do Brasil, Picanço rogou à Real Pessoa do Príncipe Regente para que mandasse erigir uma Escola de Cirurgia na Capitania da Bahia, em Salvador, pedido que foi aprovado pelo Príncipe, quando é expedida Carta Régia, de 18 de Fevereiro de 1808, dirigida ao Governador da Capitania, 6.º Conde da Ponte e firmada por D. Fernando Jozé de Portugal, na qual ordenava a necessidade de  haver uma Escola de Cirurgia, no Hospital Militar desta cidade, introduzindo-se, assim, o ensino médico no Brasil.

Morando no Rio de Janeiro, publicou seu trabalho, o único conhecido, “Ensaio sobre o perigo das sepulturas nas cidades”.

Hábil parteiro, afirmam ter sido ele quem presidiu ao parto de D. Leopoldina, quando nasceu D. Maria da Glória, sendo então agraciado com o título de primeiro Barão de Goiana, em 26 de março de 1821. Asseveram também que o Dr. Jozé Corrêa Picanço foi o pioneiro no Brasil a realizar uma operação cesariana ao partejar uma negra escrava, em Recife, em 1817, com recuperação plena da parturiente.

D. Pedro I, em 22 de Janeiro de 1823, conferiu-lhe as honras de grandeza.

Em 20 de outubro de 1823, - ou 1824, ou 1826 – Dr. Jozé Corrêa Picanço, o grande brasileiro, de fecunda iniciativa, rendeu a alma ao Criador, aos 73 anos de idade, no Rio de Janeiro. 

Foi criador do ensino médico no Brasil, professor jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Cirurgião-Mor do Reino, Primeiro Cirurgião da Real Câmara, Membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, Cavaleiro e Comendador da Ordem de Cristo, Cavaleiro e Comendador Honorário da Torre e Espada, Fidalgo da Casa Real, do Conselho de Sua Majestade, e Primeiro Barão de Goiana.